Opinião

A Segunda Carta de Sartori

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Filme de grande qualidade, repercussão e bilheteria, Traffic (USA, 2000), é talvez um dos melhores do gênero dramático a expor as relações entre dinheiro, poder, corrupção e drogas. Um de seus momentos antológicos não é propriamente uma cena, mas uma história dentro da história.

Me refiro ao personagem interpretado pelo ator Michael Douglas, o juiz Robert Wakefield. Depois de tramas e jogadas que o alçam ao posto no 1 da luta nacional antidrogas, Wakefield recebe do responsável anterior pelo cargo, duas cartas, sob a recomendação de que as usasse em momentos de crise severa.

Na primeira oportunidade em que se vê encurralado pelos adversários políticos e opinião pública, Wakefield recorda do conselho e, sem ter nenhuma outra saída, recorre à primeira carta. Ao abri-la encontra a seguinte mensagem: ponha a culpa em seu antecessor. O faz.

Livre dos problemas, Wakefield volta às atividades rotineiras, até que se defronta com nova crise política. Dessa vez, afoito, não titubeia. Vai direto à gaveta e saca a segunda carta. Nela está escrito: escreva duas cartas.

A alusão ao filme é proposital para descrever a situação do Governo Sartori. Ao longo de 2 anos e 9 meses já completos, lançou mão do recurso simplista e preguiçoso de responsabilizar o seu antecessor, Tarso Genro, pelas mazelas históricas e conjecturais das finanças públicas.

De tabela, mirou no funcionalismo e no serviço públicos (que receberam razoável recuperação salarial e valorização de suas carreiras e funções) como se fossem a parte podre que estragava o Estado, escamoteando sua visão privatista neoliberal e tergiversando sobre a completa ausência de projeto regional de desenvolvimento.

No primeiro ano, funcionou. Mesmo. Bem até demais. À qualquer cobrança ou questionamento, a resposta estava pronta: a culpa é do governo passado. A mídia fazia questão de repercutir e a sociedade que o elegera convencida de sua suposta boa gestão como prefeito de Caxias do Sul, um dos municípios mais ricos e industrializados do Brasil, saía satisfeita com a resposta.

Veio o ano 2. A combinação explosiva entre crise política e crise econômica era óbvia o suficiente não só para explicar as dificuldades do Governo Estadual como também para tornar “legítimas e naturais” as suas ações: leis para aumento de impostos e congelamento salarial (ambas aprovadas no apagar das luzes do ano de 2015), parcelamento e atraso de salários, cortes orçamentários em custeio e investimento, extinção de estatais e fundações, enfim, todo o velho repertório das políticas de Estado Mínimo para o povo e Máximo para os amigos do rei (reparem que as isenções fiscais permaneceram intactas e até receberam incremento). 2017 prometia.

E eis que chegou 2017. Mais do mesmo. A cantilena se repetia, porém se agravava. A novidade discursiva agora era o fatídico e inevitável “encontro de folhas”. Absolutamente nenhuma palavra sobre projeto de desenvolvimento, nenhuma cobrança dirigida ao Governo Federal. A lógica era a do facão. E do torno. Brutalidade contra os direitos da cidadania e da democracia. A situação, após breve bonança, a situação voltou à “normalidade” dos atrasos e parcelas, um cada vez mais longo, outra cada vez menor.
A gota d’água, a recusa, a revolta, a indignação, a greve: míseros 350 reais e ameaça debochada de que ao fim de setembro nem parcela teríamos. Enfim, a profecia se auto realizaria! Mas não. Uma greve poderosa se ergueu em todos os rincões do Rio Grande e obrigou o Governo Sartori a mudar seus planos. Começou a aparecer dinheiro e depósitos foram feitos às pressas, até de madrugada!

Sartori viu-se diante da mesma situação do juiz Wakefield, mas com um agravante que explica sua relutância: não pode abrir a segunda carta, que implicaria em renunciar (isso abortaria seus planos eleitoreiros), muito menos abrir a caixa preta (ameaçada de estourar com a CPI dos Parcelamentos) e começar a pagar corretamente os servidores públicos, pois isso significaria reconhecer que passou praticamente três anos o povo gaúcho e poria fim definitivo nas propostas de privatização das estatais (Banrisul, CORSAN, CEEE,etc) e em outras medidas do tipo neoliberal.

A Greve da Educação, agora acompanhada de outras categorias e sindicatos, tem alta aceitação, apoio e participação social os educadores não suportam mais tamanho arrocho e sofrimento, querem pôr abaixo o tripé congelamento-atraso-parcelamento. Tem compreensividade digna de nota por parte dos poderes Legislativo e Judiciário e só encontram resistência e omissão nas manchetes e matérias dos jornais e programas radiofônicos e televisivos do grupo RBS, esse tradicional bastião do pior jornalismo que possa existir, costumaz apoiador da Ditadura e dos governos neoliberais.

Ao Governador Sartori fica a dica: não estremeceremos, o desmascaramento de sua política governista é claro e evidente. E pode anotar em sua agenda: a Greve da Educação foi o início do fim de seu governicho. Cumpre aos trabalhadores construir um projeto de Estado avançado, dialógico, progressista, inclusivo e democrático para vencer agora e em 2018.
A Greve segue. Nós seguimos.Unidos e Fortes.

#ChegaDeParcelamento
#ForaSartori

* O professor Alex Saratt é vice-diretor do Núcleo do CPERS/Sindicato em Taquara e dirigente da CTB Educação – RS

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